Quando penso no território onde desenvolvo o meu trabalho, não penso apenas na Póvoa de Varzim enquanto lugar geográfico ou unidade administrativa. Penso num território humano, construído pelo mar, pelas comunidades que dele vivem e pelas relações que, ao longo de gerações, se estabeleceram ao longo da costa portuguesa. É esse território, mais do que qualquer mapa, que constitui o verdadeiro espaço dos meus projetos.
A Póvoa de Varzim é o seu centro natural, simbólico e afetivo. Poucos lugares em Portugal mantêm uma relação tão profunda e contínua com o mar. Aqui, o mar permanece um espaço de trabalho, de conhecimento, de risco e de transmissão entre gerações. As embarcações regressam diariamente ao porto, as companhas preservam saberes antigos, as famílias continuam ligadas à pesca e uma parte importante da identidade coletiva permanece organizada em torno da vida marítima. Esta continuidade faz da Póvoa um lugar privilegiado para compreender a cultura marítima portuguesa, não apenas através da sua história, mas sobretudo através da vida que nela continua a acontecer.
Mas este território nunca terminou nos limites do concelho. A sul, junto à fronteira da Póvoa de Varzim, as Caxinas constituem uma extensão natural da mesma comunidade marítima. A sua formação está intimamente ligada à deslocação de famílias de pescadores poveiros que, durante a segunda metade do século XIX, procuraram novos lugares para viver perante o crescimento urbano e balnear da Póvoa e a progressiva valorização da sua frente marítima. Muitos encontraram na Poça da Barca e nas Caxinas espaço para construir casa e continuar a viver do mar.
Apesar da divisão administrativa entre a Póvoa de Varzim e Vila do Conde, os laços familiares, profissionais e culturais mantiveram-se profundamente interligados. As companhas, os mestres, os armadores e os pescadores circularam entre os dois territórios, partilhando conhecimentos, práticas, embarcações, crenças e formas de organização social. A fronteira municipal nunca correspondeu a uma verdadeira separação humana. Entre a Póvoa de Varzim e as Caxinas formou-se um único universo marítimo, reconhecido como uma das maiores e mais importantes comunidades piscatórias portuguesas.
Existe, contudo, um paradoxo essencial nessa comunidade. A sua dimensão humana e profissional é muito superior à representação física que possui no próprio território. As Caxinas, apesar de serem um dos maiores centros de residência de pescadores em Portugal, não possuem sequer um porto de pesca próprio. O porto da Póvoa de Varzim, por sua vez, não traduz por si só a verdadeira dimensão da comunidade que nele teve origem. Muitos dos seus pescadores, embarcações e empresas trabalham ou estão sediados noutros pontos do país.
Ao longo do século XX e até à atualidade, pescadores poveiros e caxineiros acompanharam a expansão e a transformação da pesca portuguesa, estabelecendo-se ou trabalhando em portos como Matosinhos, Figueira da Foz, Peniche, Sesimbra, Sines, Portimão, Olhão, Vila Real de Santo António e noutros lugares da costa continental e insular. A sua presença não se limitou a uma migração de mão de obra. Com eles viajaram técnicas de pesca, conhecimentos do mar, formas de organização das companhas, relações familiares e comunitárias e uma identidade marítima muito própria.
Essa expansão prolongou-se também para fora de Portugal. Ao longo de diferentes períodos, pescadores e famílias desta região emigraram para outros países, onde continuaram a trabalhar no mar, na pesca, na marinha mercante ou em atividades relacionadas. A comunidade marítima poveira passou, assim, a existir muito para além do território onde nasceu. A sua verdadeira geografia é desenhada pelas rotas dos seus pescadores, pelos portos onde trabalham, pelas embarcações que comandam e pelas relações que mantêm entre si, mesmo quando vivem a centenas ou milhares de quilómetros da Póvoa de Varzim.
É precisamente esta condição móvel e disseminada que torna o território marítimo poveiro tão singular. Trata-se de uma cultura fortemente ligada a um lugar de origem, mas que nunca ficou confinada a esse lugar. A Póvoa de Varzim é o seu berço, as Caxinas representam uma das suas maiores expansões históricas, mas a comunidade existe hoje em muitos outros portos e regiões. A sua identidade não depende apenas da residência ou da pertença administrativa, mas de uma memória comum, de um saber transmitido entre gerações e de uma relação continuada com o mar.
Essa realidade prolonga-se ainda por outras comunidades costeiras próximas, como Vila Chã, Angeiras ou Labruge, onde persistem práticas e modos de vida que dialogam permanentemente com este mesmo universo. A costa norte funciona, neste sentido, como um território interligado, feito de deslocações, parentescos, aprendizagens e trocas entre comunidades que nunca viveram de forma isolada.
É neste território vivo, simultaneamente local e expandido, que os meus projetos têm encontrado o seu lugar. O trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos não procura documentar apenas uma cidade, uma profissão ou uma atividade económica. Procura compreender uma cultura, observar a forma como ela se transforma e preservar as histórias, os gestos e os conhecimentos que continuam a definir a relação entre estas comunidades e o mar.
A proximidade construída ao longo do tempo, a confiança estabelecida com pescadores, armadores, mestres, sargaceiros e famílias, bem como o acesso ao seu quotidiano, permitiram desenvolver um trabalho que dificilmente seria possível através de uma aproximação pontual ou distante. Viver e trabalhar na Póvoa de Varzim tornou possível acompanhar os ciclos da pesca, regressar às mesmas pessoas em diferentes momentos das suas vidas e perceber como a cultura marítima se adapta às mudanças tecnológicas, económicas, sociais e ambientais.
Cada projeto abriu caminho ao seguinte. Cada livro, filme, exposição ou instalação acrescentou novas camadas de conhecimento, novas relações humanas e novas perguntas. Projetos como Atlântico, Sardinha, Na Língua da Maré, Rumo à Pesca, Assim no Mar como na Terra ou Supplica nasceram de diferentes aproximações a este universo, mas partilham uma mesma origem: a possibilidade de observar uma cultura marítima a partir de dentro, com tempo, continuidade e proximidade.
Com o passar dos anos, a Póvoa de Varzim deixou, por isso, de ser apenas o lugar onde estes projetos acontecem. Tornou-se o ponto de partida de uma investigação contínua sobre a cultura marítima portuguesa. Sempre que fotografo ou filmo uma embarcação em Matosinhos, Peniche, Sines ou no Algarve, sempre que acompanho um mestre ou uma companha noutro porto, continuo frequentemente a encontrar pessoas, histórias e conhecimentos ligados a esta comunidade de origem.
O meu trabalho não é, assim, apenas sobre a Póvoa de Varzim enquanto cidade. É sobre uma comunidade humana cuja identidade foi construída pelo mar e cuja geografia sempre foi maior do que qualquer mapa. A Póvoa permanece o lugar a partir do qual observo, compreendo e organizo este trabalho, mas o território que ele procura representar estende-se por toda a costa portuguesa e por todos os lugares onde a comunidade marítima poveira continua a trabalhar, a viver e a transmitir a sua cultura.
