Ao longo da minha vida fui percebendo que o verdadeiro objeto do meu trabalho nunca foi a fotografia, nem o design, nem a música. Todas estas disciplinas constituem apenas diferentes formas de explorar uma mesma pergunta: como compreendemos o mundo e o lugar que nele ocupamos?
Interessa-me aquilo que não é imediatamente visível. As relações que unem uma comunidade ao seu território, os conhecimentos transmitidos entre gerações, a forma como a experiência se transforma em cultura e como essa cultura molda a identidade das pessoas. Acredito que muitos dos aspetos mais importantes da realidade permanecem discretos, quase silenciosos, revelando-se apenas a quem está disposto a observar durante tempo suficiente.
Talvez por isso os meus projetos se desenvolvam ao longo de vários anos. Não procuro recolher acontecimentos isolados, mas compreender processos. A confiança, a memória e a experiência não podem ser aceleradas. Exigem permanência, disponibilidade e uma atitude de escuta que coloca a observação antes da interpretação.
Nos últimos anos encontrei na cultura marítima portuguesa um território particularmente fértil para essa investigação. O mar continua a ser um dos lugares onde a relação entre o ser humano e a natureza se manifesta com maior intensidade. Ali coexistem conhecimento empírico, tradição, inovação, risco, cooperação e adaptação, lembrando-nos que a inteligência de uma comunidade não reside apenas naquilo que sabe explicar, mas também naquilo que aprendeu a viver.
O meu trabalho não procura idealizar essas comunidades nem transformá-las em símbolos de um passado perdido. Também não pretende construir discursos de condenação ou de nostalgia. Interessa-me compreender antes de julgar. Acredito que cada comunidade transporta uma forma própria de inteligência, construída através da experiência acumulada de muitas gerações, e que essa inteligência merece ser documentada e preservada antes de desaparecer.
Esta forma de olhar é profundamente influenciada pelo meu percurso pessoal e pelo contacto com diferentes correntes filosóficas e espirituais que entendem o ser humano como parte integrante da natureza e não como uma realidade separada dela. Vejo a história da humanidade como um processo contínuo de aprendizagem e expansão da consciência. Apesar das contradições do nosso tempo, acredito que continuamos a desenvolver novas formas de compreender a nossa relação com os outros, com o mundo vivo e com o planeta que habitamos.
É nesse contexto que utilizo a fotografia, o cinema documental, a escrita, o som, a música ou as tecnologias digitais. Não como um fim em si mesmos, mas como instrumentos ao serviço da memória. Cada livro, cada exposição, cada documentário ou plataforma digital constitui um novo capítulo de uma investigação em permanente construção sobre a cultura, o património e a forma como o conhecimento humano se transmite ao longo do tempo.
No fundo, o meu trabalho nasce da convicção de que preservar a memória não significa fixar o passado. Significa criar condições para que ele continue a dialogar com o presente e possa contribuir para a construção do futuro.
