

A tragédia marítima de 27 de fevereiro de 1892 permanece um marco imperecível na memória coletiva da Póvoa de Varzim. Num só dia, 105 vidas foram ceifadas pelo mar, mergulhando a comunidade piscatória num luto profundo e transformando, para sempre, a relação dos poveiros com o mar. O impacto não se limitou ao drama local: levou à criação do Instituto de Socorros a Náufragos e desencadeou melhorias estruturais na sinalização e segurança marítima. Sobretudo, deixou marcas duradouras no modo de ser e de viver da comunidade. Durante décadas, o dia 27 de fevereiro foi sinónimo de silêncio, dor e recolhimento.
É a partir deste episódio fundador que nasce Supplica, um espetáculo multimédia em desenvolvimento, que será apresentado pela primeira vez em fevereiro de 2026, na Igreja da Lapa da Póvoa de Varzim. Integrado na residência artística MAR|PVZ19/20 e apoiado pela Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, o projeto pretende transformar a memória da tragédia numa experiência artística viva, imersiva e coletiva.

Mais do que um registo histórico, Supplica é uma evocação sensorial, na qual música, imagem e texto se entrelaçam para dar voz ao mar, aos náufragos e às famílias que permaneceram em terra. Dividido em sete capítulos, o espetáculo procura reconstruir, de forma poética e simbólica, os acontecimentos que conduziram ao naufrágio e as suas repercussões nas comunidades piscatórias afetadas pela tragédia.


O espetáculo assume a forma de uma projeção de vídeo de grandes dimensões, acompanhada por um sistema de som imersivo de alta qualidade. A componente visual recorre a material fotográfico de arquivo, utilizado tanto através de processos de animação como por meio da criação de novas imagens a partir desse mesmo arquivo. Este conjunto de imagens procura reconstruir momentos impossíveis de revisitar por outras vias, funcionando como fragmentos visuais que ajudam a revelar a realidade social, humana e material da época e do naufrágio.
A música, composta especificamente para esta obra, constitui o fio condutor emocional do espetáculo, pontuando os momentos de maior intensidade simbólica. Inspirada em compositores como Johann Sebastian Bach, nas suas obras para órgão, e Hans Zimmer, na banda sonora do filme Interstellar de Christopher Nolan, a partitura assume o órgão de tubos, entendido como o primeiro grande sintetizador, enquanto instrumento capaz de estabelecer uma ponte entre a terra e o céu. A composição procura, assim, transcender a simples narrativa da tragédia, convidando à contemplação da vida como experiência espiritual, onde o humano tenta tocar o eterno.
A música será apresentada através de um sistema de som quadrifónico, envolvendo todo o espaço da igreja e criando uma sensação de espacialização e tridimensionalidade que reforça o impacto imersivo da experiência.
Supplica nasce, assim, de um desejo de reinterpretar a memória da tragédia de 1892 e devolvê-la ao presente sob a forma de uma experiência artística partilhada. O projeto propõe-se não apenas recordar o passado, mas mantê-lo vivo, como uma súplica coletiva que ecoa no tempo, entre o mar e a terra.
27/02/2026