Mais do que um barco, o Rumo à Pesca é um testemunho vivo da história da pesca do cerco em Portugal. A sua longevidade, a ligação a Peniche e ao movimento cooperativista das pescas, bem como a dedicação das tripulações que o mantêm ativo, fazem dele um protagonista singular no imaginário marítimo português.

Foi essa singularidade que me levou a centrar neste barco um projeto autoral, em que a fotografia se tornou veículo de memória e de encontro. O Rumo à Pesca não é apenas cenário, mas corpo e alma de uma comunidade: espaço de trabalho, casa flutuante, segunda família. Através dele, pude documentar não só a prática da pesca, mas também as relações humanas, os gestos, os ritmos e a cumplicidade que o mar exige.

O projeto materializa-se num livro e numa exposição, onde a vida a bordo se revela entre a dureza do ofício e a beleza, tantas vezes invisível, de um quotidiano partilhado no mar.

Ao longo de quatro anos, entre 2018 e 2022, acompanhei vários barcos da pesca do cerco do norte do país, com o intuito de documentar este tipo de pesca tão importante para Portugal, quer a nível socioeconómico, quer a nível cultural. O resultado desse trabalho foi o livro Sardinha, apresentado no início de 2023. Durante esse período, cruzei-me algumas vezes com o Rumo à Pesca, fotografando-o tanto em alto-mar como em diferentes portos de pesca ao longo da costa. Interessou-me particularmente o facto de o Rumo à Pesca ser um dos barcos mais antigos ainda em atividade da pesca do cerco em Portugal e também porque a sua origem estava ligada a uma história ainda mais interessante, que passava por Peniche. Este barco faz parte da história da pesca da sardinha e da construção deste tipo de embarcações, ocupando um lugar de destaque no movimento cooperativista das pescas em Portugal.

Estabeleci o primeiro contacto com a tripulação em setembro de 2019, no porto da Póvoa de Varzim, altura em que vieram a terra trocar de rede. Só passado um ano é que decidi embarcar no Rumo à Pesca. Nessa altura, praticamente toda a frota do cerco do Norte me conhecia e as tripulações dos barcos em que ainda não tinha embarcado convidavam-me a fazê-lo. Foi o caso do Rumo à Pesca, através do seu maquinista, António Lara Marques.

Na primeira viagem fui conhecendo a tripulação e conversando com o armador e mestre António Pereira, que me foi contando um pouco da sua história e da história do Rumo à Pesca.
Depois dessa experiência, ficou claro que se tratava de um barco interessante por várias razões. Por isso, decidi embarcar novamente para documentar mais detalhadamente o barco, o trabalho e a tripulação, procurando detalhes que me pudessem ter escapado da primeira vez. No conjunto, as duas viagens representam o dia a dia (e a noite) do trabalho destas pessoas. Um trabalho que ainda depende, em grande parte, de uma numerosa mão-de-obra humana e que reúne a bordo cerca de vinte homens, ao contrário de outras artes de pesca, que não chegam a meia dúzia de tripulantes por barco. Além disso, as tripulações são constituídas maioritariamente por pescadores de Vila do Conde ou da Póvoa de Varzim e ainda não se encontra, por agora, muita mão-de-obra imigrante a trabalhar nestes barcos, como acontece noutras artes de pesca. Isto resulta num ambiente quase familiar. Entre as dezenas de barcos da pesca do cerco, existe uma camaradagem difícil de encontrar noutras artes de pesca, mais individualistas por natureza. Isso deve-se também ao facto de os pescadores terem frequentemente familiares a bordo ou noutros barcos do cerco.

Este projeto autoral e editorial representa o meu olhar sobre a atividade do Rumo à Pesca e sobre os homens que nele trabalham e dele dependem. Fui guiado pela vontade de revelar, através das fotografias, momentos únicos de quem habita este pedaço de madeira cheio de vida. Por isso, estes registos visuais documentam não apenas o trabalho, mas também os sentimentos e as experiências partilhadas entre o homem e o mar. A narrativa principal do livro baseia-se essencialmente nas duas viagens realizadas em setembro de 2020, sendo complementada, no início, por um conjunto de fotografias registadas entre 2018 e 2019 e, no final, por fotografias de um dos últimos encontros com a tripulação, em novembro desse mesmo ano. Estes momentos foram fundamentais para captar a essência do trabalho, o ambiente a bordo e a dinâmica entre os membros da tripulação, que constituem uma segunda família unida pelo trabalho. Neste projeto, o barco e as pessoas geraram um ambiente único e propício, que me permitiu explorar novas formas de documentar a pesca do cerco e aventurar-me por outras opções estéticas.

As fotografias que registei resultam da combinação de vários elementos que se conjugaram de modo sugestivo. Desde o início do meu envolvimento neste tema, percebi que alguns barcos, depois de uma primeira viagem, se destacavam mais do que outros em termos do resultado do meu trabalho fotográfico. A interação entre as diversas cores dos barcos, o vestuário dos pescadores, a cor das dornas (contentores usados para armazenar o peixe) e até o tipo de iluminação artificial, juntamente com as dimensões e configurações espaciais de cada barco, contribuíam para a criação de fotografias mais ou menos distintas e impactantes.

As fotografias, captadas maioritariamente em 2020, documentam um fragmento da história do Rumo à Pesca. Passados quatro anos, o barco mantém-se o mesmo, apesar de várias visitas ao estaleiro. As alterações mais significativas ocorreram ao nível da tripulação: alguns pescadores reformaram-se ou mudaram-se para outras embarcações, enquanto novos pescadores integram agora a tripulação do Rumo à Pesca. Esta é uma realidade expectável na vida de um barco com 45 anos. Dezenas de homens fizeram parte do Rumo à Pesca. Alguns dedicaram a maior parte das suas vidas a este barco e estão eternizados na memória coletiva, impressa em cada tábua.

Vários fatores contribuíram para que este projeto assumisse a forma com que se apresenta neste livro. Inicialmente, foi a intuição que me impulsionou a fazer um esforço final e a embarcar no Rumo à Pesca, numa noite fria e com o mar pouco convidativo. Essa decisão revelou-se providencial, não só pela história do barco e pelo seu papel na história da pesca da sardinha, da construção naval e do cooperativismo nas pescas em Portugal, mas também pelo resultado surpreendente que me encorajou a continuar a embarcar.

O mar oferece momentos singulares, difíceis de captar com uma câmera fotográfica. A essência da experiência tende a perder-se em qualquer meio que não seja a própria memória. Contudo, mesmo esta é falível e as suas recordações vão-se esbatendo com o tempo. Ainda assim, as fotografias, apesar de serem testemunhos limitados do que realmente aconteceu, constituem registos importantes de uma realidade que muitos poderão nunca ter a oportunidade de experienciar.

Este trabalho é um tributo à resiliência humana, à beleza que se esconde na rotina diária daqueles que o mar adotou como companheiros. É uma homenagem à simplicidade da vida entregue a um pedaço de madeira. Onde cada dia traz a promessa de um regresso e cada noite se revela um desafio, um testemunho da eterna dança entre o homem e o mar.

O livro Rumo à Pesca

Um ensaio fotográfico sobre a pesca do cerco e um barco nascido do movimento cooperativista das pescas. Entre a experiência a bordo e a memória da construção naval em madeira, o livro testemunha a resiliência da pesca do cerco em Portugal.

A exposição Rumo à Pesca

Com imagens de grande formato, revela o quotidiano a bordo e a cumplicidade entre tripulação e embarcação. Já apresentada em vários contextos, dá a conhecer de perto a dureza e a humanidade da pesca do cerco.