O mar sempre foi mais do que um território de passagem: é lugar de sobrevivência, memória e identidade.
Nele cruzam-se a dureza do trabalho e a beleza da comunhão com a natureza, a necessidade económica e o legado cultural transmitido de geração em geração.

A pesca, que moldou durante séculos a vida das comunidades costeiras portuguesas, é hoje também um património frágil, ameaçado por transformações sociais e ambientais. O envelhecimento das tripulações, a diminuição do número de jovens que escolhem o mar como modo de vida, a pressão das políticas europeias e a escassez de recursos pesqueiros colocam em risco a continuidade desta atividade milenar. Ao mesmo tempo, as alterações climáticas e a transformação dos ecossistemas marinhos acrescentam uma nova camada de incerteza ao futuro. O que outrora foi sinónimo de abundância e segurança coletiva é hoje vivido entre a perseverança e a dúvida, num delicado equilíbrio entre tradição e sobrevivência.

É neste contexto que surge 7 barcos, 7 vidas, 7 mares, um projeto documental que procura captar a essência de um modo de vida em transformação. Mais do que registar técnicas ou embarcações, trata-se de preservar histórias humanas e a relação íntima entre as comunidades e o mar. Cada barco torna-se um microcosmo, um espaço onde se cruzam o trabalho árduo, a memória transmitida de geração em geração e a esperança de continuidade. O projeto afirma-se, assim, como um gesto de salvaguarda: um documento visual e sonoro que procura resistir ao esquecimento e dar testemunho de uma cultura marítima que, embora ameaçada, permanece vital para compreender quem somos enquanto povo.

Este projeto começou a ser desenvolvido em 2019 e tem acompanhado sete embarcações da Póvoa de Varzim, cada uma com a sua história própria, um modelo distinto de construção naval e técnicas de pesca específicas, praticadas em diferentes mares. Mais do que objetos de trabalho, estes barcos são o reflexo das pessoas que neles trabalham e que os lideram: homens que enfrentam diariamente a incerteza do mar e famílias que, em terra, vivem entre a espera, a esperança e a continuidade de uma tradição.

O projeto combina fotografia e registos audiovisuais realizados a bordo e em terra, acompanhando de perto aqueles que dão rosto e voz a cada embarcação. São eles que conduzem o fio das sete narrativas, revelando o quotidiano do mar e a vida em terra. As histórias individuais entrelaçam-se naturalmente, não apenas porque pertencem à mesma comunidade, mas também porque, em muitos casos, os unem laços de família, amizade e entreajuda. Paralelamente, o projeto dedica atenção à construção naval, às artes de pesca e às espécies capturadas, apresentadas através de infografias e ilustrações que acrescentam rigor e contexto. Ainda assim, o coração da narrativa permanece nas pessoas: nos seus gestos, hábitos e costumes, que lentamente se transformam ou desaparecem, e cuja preservação é essencial para compreender não apenas a cultura marítima, mas também a história social e económica de Portugal.

7 barcos, 7 vidas, 7 mares será apresentado em 2026 na forma de um livro e de uma exposição fotográfica itinerante, com uma forte componente multimédia. Um testemunho coletivo que procura revelar a ligação profunda entre barcos, vidas e mares, preservando, através da arte, o património humano e cultural de uma comunidade que vive do mar e para o mar.